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sábado, 23 de maio de 2009

Sábios portugueses das três tradições (VI)

Salomão Molco e o encontro com o cabalista Joseph Caro


Diogo Pires (Lisboa, 1500 - Mântua, 1532), secretário de D. João III, depois da visita a Lisboa do misterioso David Reubeni, vindo da Arábia, mudou de nome para Salomão (ou Solomon) Molco, circuncisou-se a si mesmo (quase encontrando a morte) e, fugindo de Portugal, assumiu a sua condição judaica. Na Arábia do século XVI havia judeus e, no entanto, Salomão Molco haveria de fugir de Portugal e morrer às mãos dos inquisidores italianos...

Visionário, cabalista inspirado, assistido por um maggid (um guia celeste) segundo a lenda: um Maggid apareceu-lhe, encorajando-o e guiando-o desde então, numa altura em que ele, desanimado e cansado de perseguições, pediu um sinal aos céus. O maggid dá-lhe indicações para seguir para a Terra Santa.
Passando pela Turquia oriental encontra o Rabi José (Joseph) Taytazak. Este último, tinha-se ali refugiado, fugido de Espanha, na cidade muçulmana de Salónica e aí cumpriu as funções de Rabi-Mor. Salónica era, depois de Safed, o maior centro de cultura judaica da época. Tal como se diz na Enciclopédia Judaica: "Uma nova era para a comunidade começou com a conquista de Salónica por Amurath (1 de Maio de 1430). Aos judeus foram garantidos direitos iguais aos dos outros habitantes não-Muçulmanos, e os seus rabinos foram colocados no mesmo patamar que os líderes espirituais da Igreja Grega. A feliz condição da comunidade judaica salónica nesta época é descrita por Isaac Ẓarfati numa carta dirigida aos judeus da Alemanha, a quem recomenda que emigrem para a Turquia." (Ver Enciclopédia Judaica, entrada "Salónica"). Também em Salónica esteve o nosso Amatus Lusitanus, refugiado de Portugal e de Itália, onde foi médico do Papa Julius III.

Voltando a Molco, na sua passagem por Adrianopole conhece José (Joseph) Caro. Segundo a tradição, tanto Taytazak como Caro foram favorecidos com um Maggid depois da visita de Molco.
O nosso compatriota, Salomão Molco, passou ainda por Safed, onde, tal como nos outros locais por onde passou, deixou forte impressão. Misteriosamente, regressa a Roma, a "cidade iníqua", onde é aclamado por prever com exactidão a cheia do Tibre (a 8 de Outubro de 1530). Ele e Reubeni conversam com o cruel Carlos V em Ratisbona. Ambos foram presos e levados para Itália. Molco foi condenado à morte, considerado renegado da fé católica, levado para Mântua. Com as chamas lentas já a arder, ainda perguntaram se ele queria reintegrar a fé católica em troca da sua vida. Molco morreu judeu.
A morte deste cabalista e misterioso português causou um choque tremendo em toda a comunidade judaica. Em Safed dizia-se que por lá aparecia Molco todos os fins de tarde de Sexta-feira, entoando a benção do Kiddush sobre um copo de vinho.
Uma nota muito interessante para portugueses interessados nos seus: ainda em 1923, a comunidade judaica de Praga tinha em sua posse uma capa de seda preta e uma bandeira de seda preta que pertenceram ao nosso Salomão Molco. Na bandeira estavam bordados, em seda amarela, vinte e três versículos da Bíblia hebraica, dezanove dos quais retirados dos Salmos.
Depois da morte de Molco, o maggid de Caro começou a aparecer com mais frequência.

Bibliografia:
para além de outras referências bibliográficas, é bastante interessante a peça de Edmond Fleg: Le Juif du Pape.


quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sábios portugueses das três tradições (V)

Leão Hebreu: uma cabala filosófica

יהודה בן יצחק אברבנאל, Yehuda ben Yitzhak Abravanel ou simplesmente Judá Abravanel, filho de Isaac Abravanel (que referimos na entrada anterior em torno dos sábios portugueses das três tradições, nasceu em Lisboa cerca de 1465 (e terá morrido em 1523 em Itália) e ficou conhecido como Leão Hebreu. Escreveu os famosos Diálogos de Amor. Nestes diálogos, Fílon vai conversando com Sofia; é, portanto, o verdadeiro diálogo filosófico (filo-sofia, o amor dialoga e procura a sabedoria).
No Renascimento, estamos já numa época em que os homens necessitam muito das circunvoluções do raciocínio para chegarem a "ver", isto é, para chegarem à intelecção. É por esta razão que cresce exponencialmente o números de escritos filosóficos. Todavia, neste período de desvio do essencial através de uma postura arrogante do homem perante o mundo natural e sobrenatural, homens houve que serviram de farol para o mais importante, sem conceder. É este o caso de Leão Hebreu que, bem fundado na educação judaica, preservou e perpetuou o tesouro mais importante dessa tradição envolvendo-a na forma de um neoplatonismo, mais aparente do que real, porque na verdade Leão Hebreu é o conciliador notável do platonismo e do aristotelismo, que ele vê como dois aspectos do mesmo: "O divino Platão, querendo ampliar a ciência, arrancou-lhe uma fechadura, que foi a do verso, mas não tirou a outra da fábula. Assim que ele foi o primeiro que rompeu parte da lei da conservação da ciência. Mas deixou-a de tal maneira fechada com o estilo fabuloso, que bastou para a conservação dela. Aristóteles, mais atrevido e cobiçoso da ampliação, com novo e próprio modo e estilo no dizer, quis tirar também a fechadura da fábula e romper totalmente a lei conservativa. E falou das coisas da filosofia em estilo científico e em prosa." (sensivelmente a meio do Diálogo segundo). Esta concepção superior de Leão Hebreu, que respira acima da mediocridade das discussões habituais dos que escrevem sobre filosofia (não me refiro aos filósofos, mas apenas aos que vivem deles...), não pode deixar de nos deixar boquiabertos. Platão e Aristóteles estavam na posse do segredo, do mesmo segredo. Neste diálogo segundo, Leão Hebreu, um pouco antes da citação anterior, dá-nos uma explicação das razões por que se deve preservar o segredo, é esta razão que ilumina inteiramente a citação anterior e de que retiro apenas isto: "Por isso, nos tempos antigos, encerravam os segredos do conhecimento intelectual dentro das cascas das fábulas com grandíssimo artifício para que não pudesse entrar dentro senão o engenho apto para as coisas divinas e intelectuais e a mente conservativa das verdadeiras ciências e não a corruptiva das mesmas." Meu Deus, como é alto este espírito de Leão Hebreu e como é notável a sua educação e a escola ou yeshiva em que se fez! Confesso que ao ler os diálogos, várias vezes verto lágrimas de entusiasmo e de pena. Como são maléficos os que mandam nos portugueses... É aceitável que se expulse gente desta? D0 melhor que a humanidade tem?

Mas esta entrada existe por outra razão; queria apenas lembrar que vale a pena ler os diálogos tomando atenção ao facto de que a doutrina que lhe faz o coração, o núcleo mais íntimo, é cabalista e, mas isso ficará talvez para outra ocasião, cristã. Apenas algumas citações à volta da cabala:

"Agrada-me ver-te tornar Platão moisaico e do número dos cabalistas."

"Mas dizem ter uma coisa e outra por disciplina divina, não só de Moisés, dador da lei divina, mas desde Adão, de quem por tradição de boca, tradição que não se escrevia, chamada cábala em língua hebraica. A palavra cábala quer dizer recepção. Veio do sábio Henoc, e de Henoc ao famoso Noé. Este, depois do dilúvio, pela sua invenção do vinho, foi chamado Jano, porque Jano em hebreu quer dizer vinho. E pintam-no com duas caras, uma atrás e outra adiante, porque viu o que havia antes do dilúvio e o que foi depois dele. Este deixou a cábala com outras muitas notícias divinas e humanas, ao mais sábio de seus filhos, Sem, e a seu descendente Heber, que foram mestres de Abraão, chamado hebreu, graças a Heber, seu antecessor e mestre. E também viu a Noé, pois este morreu, sendo Abraão de ciquenta e nove anos. De Abraão, por sucessão de Isaac e de Jacob, e de Levi, veio a tradição, segundo dizem os sábios dos hebreus, chamados cabalistas."

Para terminar, numa vocação que não se encerra apenas nos limites estritamente superficiais de uma tradição, assim nos mostra Leão Hebreu como no íntimo das tradições verdadeiras há sempre uma porta para uma liberdade superior, onde através dos cultos, mas acima deles, os sabios se podem encontrar. Trata-se da noção de Jubileu: "naquele ano [de Jobel ou Jubileu] tinha de haver perfeita quietude de todas as coisas, assim terrestres como negociativas, e todo o escravo alcançava liberdade"; "O texto diz: no ano de Jubileu todas as coisas voltarão a sua origem e raiz; a liberdade apregoar-se-á na Terra."

Aqui fica mais um dos nossos, dos nossos maiores portugueses que, como tantas vezes, dentro ou fora do país, se vêem constrangidos ao fecundo e simbólico exílio, a partir do qual deixam marca profunda na ingrata cultura europeia.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sábios portugueses das três tradições (IV)


Isaac Abravanel: uma interpretação do Quinto Império



Isaac Abravanel (1437-1508), nasceu em Lisboa e morreu em Veneza, tendo sido enterrado no cemitério judeu de Pádua. Foi homem de acção - conselheiro político de várias cortes e financeiro - e também homem de contemplação - filósofo, comentador da Bíblia e messianista. Aquele que nos importa aqui é apenas o homem de contemplação, autor de comentários à Bíblia, ao Guia dos Perplexos de Maimónides e, entre vários outros livros, autor de As Fontes da Redenção.
É neste último livro que encontramos a refutação da interpretação cristã do sonho de Nabucodonosor. O leitor está lembrado da descri ção da estátua com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro e pés compostos por uma parte de ferro e outra de barro. Para Abravanel a cabeça de ouro é a Babilónia, os braços e o peito de prata são a Pérsia e a Média, o seu ventre e coxas são a Grécia, as pernas de ferro são Roma e os pés são, respectivamente, a parte de ferro os cristãos e a parte de barro os muçulmanos. O quinto império que permanecerá para sempre, é, naturalmente, interpretado como Israel. E aquela pedra que vem pulverizar a estátua, antes da instauração do quinto império, é o Decreto divino que se manifesta contra a Cristandade e o Islão

A argumentação de Isaac Abravanel, para a identificação do quinto império, é na verdade bem engenhosa: este império que permanecerá para sempre só pode ser um império de uma nação que, ao contrário de todas as outras, não detinha nenhum território próprio. Esta especificidade seria a marca essêncial de Israel.

Interpretando os quatro montros da visão de Daniel, identifica o último com Roma. Os seus pés são os reis de Roma, os dentes de ferro, os consules romanos, os dez cornos, são os imperadores romanos, o pequeno corno é o papado, porque pretende trazer uma nova ciência da Escritura que substitui a judaica e introduz elementos estranhos (Abravanel diz "monstruosos") como a Trindade e a Incarnação; por outro lado, vem ainda trazer um novo calendário, alterando o calendário judaico e pretende abolir os preceitos da Torah. Se pensarmos ainda que no Evangelho se diz que a salvação vem pelos judeus e que Cristo diz que não vem alterar um Yod ao mosaísmo e se a isto acrescentarmos que os judeus recusaram Cristo e Maomé, podemos estar seguros de que aqui se esconde um grande mistério, mas também de que a sua natureza seja outra que não a da competição por um império, mas a de uma iluminação da humanidade. Não podemos agora desenvolver este aspecto, mas S ampaio Bruno há-de ter ainda uma palavra a dizer sobre tudo isto.

A influência de Abravanel foi grande: marcou, pelas suas ideias messianistas, o Maharal de Praga; Salomão Molkho ou Molcho foi apoiado pelos descendentes de Abravanel; os doutrinadores do Sabataísmo referem-se-lhe. No século XIX há um reencontro da Europa com os seus comentários bíblicos: Mendelssohn, Samuel David Luzzatto e Meir Leib Malbim - todos se lhe referem.

Bibliografia: como é habitual temos de recorrer ao estrangeiro para as referências mais importantes aos grandes de Portugal. A bibliografia que refiro dis respeito apenas a livros em minha posse.
Roland Goetschel, Isaac Abravanel: conseiller des princes et philosophe, Albin Michel, 1996.
Isaac Abravanel, Commentaire du récit de la création, Vedier, 1999. Este livro de Abravanel traduzido para francês, ao contrário do que é costume nesta belíssima colecção da Verdier, intitulada Les Dix Paroles, não é dotada sequer de uma introdução explicativa... estranha-se o trabalho de esta magnífica tradução em contraste com a ausência de uma nota introdutória, que fica reduzi
da a uma nótula da contra-capa.


Nota: quando vamos nós, os portugueses, voltar a lembrar aqueles que são nossos? Peço ao leitor que aprecie bem estes selos e tire daí as suas conclusões: o que é que não lhe soa bem? Os selos não são portugueses, pois não? Foram emitidos em 1992 para comemorar o quinto aniversário da descoberta da América. [Sim, é verdade, no selo da direita diz mesmo Issac...] O retrato é a representação tradicional de Abravanel.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tradições Abraâmicas

Somos herdeiros das três tradições abraâmicas. Temos um dever a cumprir e os da filosofia portuguesa têm-se esquecido disso.
A nossa teologia popular (porque a erudita não é nossa, mas de Roma ou França) não coloca a tónica na pessoa de Cristo, por essa razão dá mais destaque ao seu lado humano e menos ao seu lado de Deus.
Se só compreendemos verdadeiramente aquilo que criámos, então temos de olhar livremente para a nossa tradição e procurar compreender como compreenderam aqueles que a criaram.

A nossa cristologia popular é de tal modo que permite estabelecer a ponte fecunda entre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Vemos Jesus como o rabi dos rabis, que não vem alterar a lei de Moisés. Vemos Jesus como aquele que, prolongando a lei de Moisés, desvelou o seu esoterismo e talvez tenha sido morto por isso. Vemos Jesus ainda como o profeta mais Santo, mas não o último dos profetas, porque nós, portugueses, ansiamos ainda pela revelação das revelações, isto é, aquele livro que vem completar a Torah, que vem selar os Evangelhos e cumprir o Corão: não será um livro, mas o Verbo.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Três tradições

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"Três tradições concorrem na formação do pensamento português:
a judaica, a cristã e a islâmica."
Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar